Manual Para Destapar Um Policial Infiltrado

2025
Contents
BasqueCatalanEnglishFrenchGalicianGermanItalian • Portuguese • Spanish

Original text in Spanish
Manual para destapar a un policía infiltrado
manualinfiltrados@gmail.com
2025
loquesomos.es

Portuguese translation
Anônima/o

Manual

“Havia escutado que quando os exércitos de formigas se desfaziam, as formigas da frente se atiravam às águas, empilhadas umas sobre as outras enquanto se afogavam, oferecendo seus próprios corpos como ponte para aquelas que vinham atrás.”

Kobayashi Takiji, Vida de un militante y otros relatos proletarios

Quem o escreve?

Esse manual está redigido por militantes que viveram de perto infiltrações policiais destapadas entre os anos de 2022 e 2024. Se dirige a toda a militância passada, atual e futura assim como a todas as organizações e coletivos que estejam minimamente preocupadas pela segurança nos seus espaços.

Com quais objetivos?

Os objetivos que marcamos na hora de escrever esse documento foram os seguintes:

  • Transmitir a experiência e os conhecimentos que viemos adquirindo sobre a raíz das infiltrações policiais e que por sua vez sentimos falta de ter na hora de afrontá-las, inclusive para preveni-las.
  • Aumentar a cultura de segurança entre as organizações e coletivos.
  • Lançar uma mensagem muito clara à militância sobre a polícia e o estado: não são infalíveis, e nos baseamos em fatos. Existem falhas no seu funcionamento e queremos expô-las de forma pública e acessível.

Será que é aconselhável tornar isso público?

Antes de escrever esse manual nos questionamos sobre todas as opções e nos surgiram dúvidas. É conveniente fazer pública a informação que temos e a que viemos obtendo de cada um dos casos descobertos e publicados? E se põe em perigo investigações em marcha? E se a polícia muda o método de infiltração a partir de agora?

Colocamos em uma balança todos os prós e contras de fazer público um documento assim e também consultamos e valorizamos a experiência do Reino Unido a respeito e nossas conclusões são as seguintes:

  • Consideramos fundamental fazer públicas todas as informações e dados obtidos nos casos destapados até agora e que não haviam sido publicados ainda. Evidentemente não nos referimos a detalhes mórbidos e sensacionalistas que possam nos expôr desnecessariamente e que não contribuam com nada útil aos objetivos que buscamos, mas sim as questões que realmente ajudem a entender o funcionamento destas práticas repressivas. Fazê-las públicas nos faz pensar que seria possível que ajude a muitas organizações a descobrir infiltrados e/ou descartar possíveis suspeitas.
  • Que somente umas poucas pessoas tenhamos informações tão importantes implica que unicamente poderíamos fazê-las chegar a organizações próximas e/ou de confiança, fomentando assim a lógica do individualismo, do amiguismo mediante o “salve-se quem puder” e que esse reduzido grupo de pessoas nos encarreguemos de investigar suspeitas, nos carregando assim com uma responsabilidade e um trabalho que seria logisticamente impossível de assumir. Mais ainda o perigoso e insolidário que seria deixar ao nosso critério e vontade essa possibilidade, já que podem se criar hierarquias e um abuso de poder importantes.
  • É evidente que a polícia está informada dessas investigações e que somente lendo os artigos publicados até agora nos meios de comunicação já detectaram padrões em comum em todos os casos nos quais nós estamos investigando, e que estão nos ajudando a afinar cada vez mais na hora de criar em nós uma ideia de como funcionam os infiltrados. Simplesmente com isso já poderiam estar pensando em uma mudança de estratégia policial, se já não estão fazendo. Talvez apartir da publicação desse documento tomem essa determinação. Por que então publicá-lo igualmente?

Por um lado, comprovamos que as táticas de infiltração policial são extremamente similares no Reino Unido e no estado espanhol e que estão vigentes há décadas. Ou seja, o estado tem uma fórmula que funciona a ele (nos baseamos em fatos) e, portanto, mudá-la implicaria abandonar essa fórmula exitosa e se arriscar a provar outra sem garantia de que vá funcionar a eles corretamente.

Por outro lado, existe hoje algum canal comum a toda a militância, interno, acessível e suficientemente seguro para que essa informação não chegue à polícia, inclusive aos possíveis infiltrados entre essa militância? Infelizmente, a resposta para essa pergunta claramente é não.

Outro possível inconveniente de fazer público esse documento seria o de colocar em perigo investigações atualmente em marcha sobre possíveis infiltrados. É verdade que isso poderia acontecer e que eles poderiam fugir ao saber que estão sendo investigados, ou ao menos ser conscientes de que uma parte das suas táticas estão sendo expostas publicamente. Se foge, é um policial infiltrado a menos nas nossas organizações. Se fica, temos muitas chances de pegá-los. Em qualquer caso, colocamos em uma balança, por um lado, o fato de influenciar em uma ou várias organizações, e por outro que toda a militância saiba como poder detectar a um possível infiltrado. Em nossa opinião, nos inclinamos claramente pela segunda opção.

Ainda, uma razão a mais que nos convenceu para fazer público o manual é a experiência do Reino Unido e as conversas que temos tido com as militantes de lá sobre esse assunto. Ao perguntar se elas tinham esses debates internos, nos comentaram que sim mas que igualmente se inclinaram pela publicação. Também queríamos saber se, quando publicaram e com uns anos de bagagem, o balanço era positivo. E nos disseram um sim enfático. Com a sua publicação puderam se descobrir muito mais infiltrados em organizações que tinham acesso a esse documento e com as que não mantinham nenhum tipo de contato. Não esqueçamos que se tal documento tivesse chegado até nós há anos talvez o dano e a duração das infiltrações no estado espanhol tivessem sido muito menores.

Podem ser vários os motivos pelos quais um coletivo ou um grupo de pessoas não queiram fazer público o fato de ter um policial infiltrado (vergonha, ego, não querer admitir “debilidades”, não ter capacidades e/ou meios para gestionar a situação, etc.) É verdade que, mesmo que possam parecer entendíveis, o único que trás essa ocultação é a insegurança dos nossos coletivos e entornos, a não poder obter uma informação valiosa desses casos que nos ajudem a seguir descubrindo padrões e informações que sirvam para destapar mais casos e obter mais ferramentas.

Depois de se destapar vários casos de policias nacionais infiltrados em movimentos sociais e políticos (movimentos de luta pela moradia, antirracismo, antifascismo, etc.) são muitas as dúvidas e perguntas que as militantes e organizações se fazem: Como se descobriu? Há algum método ou fórmula para encontrá-los? Como pode se gestionar uma investigação? Como saber se alguém conhecido que milita na nossa organização é um policial infiltrado?

Vamos tentar solucionar todas essas dúvidas a partir das nossas experiências.

Falaremos disso mais adiante, infelizmente nunca é tão simples confirmar algumas suspeitas: não existe uma base de dados pública de policiais infiltrados, e encontrar provas é um processo longo de investigação, inclusive quando as provas contra eles sejam muitas.

As investigações exitosas sobre infiltrados costumam começar com suspeitas que levanta o infiltrado e que são detectadas normalmente por gente mais afim ao mesmo, que acaba criando um grupo de investigação. Se tomarmos como referência o Reino Unido, o primeiro passo que tomava o grupo era compartilhar e debater suas preocupações a nível interno. Podemos extrair das suas conclusões que ao longo dos anos observaram boas e más práticas ao redor disso, mas o importante é que seja um grupo interno quem controle o processo, já que esse começa e termina no seu seio.

Por que é importante que o grupo seja quem controle o processo?

  1. Por uma questão de discrição:
    • Se a pessoa suspeita não seja policial e corra o rumor, poderia afetar gravemente a sua imagem, reputação e lhe causar danos psicológicos e emocionais.
    • Se a pessoa suspeita seja policial e sabe que está sendo investigada, poderia tomar cartas no assunto (desviar a atenção, destruir provas, construir represálias…)
  2. Por uma questão de manejar os tempos: não depender de ninguém, não estar pressionadas para obter resultados, etc.
  3. Por uma questão de interesse: é verdade que meios de comunicação alternativos como La Directa e El Salto foram (e estão sendo)um papel fundamental em todos os casos de policiais infiltrados destapados porque permitem dar anonimato às militantes que os descobrem e porque servem de porta-voz midiático na hora de denunciá-los. Mas, às vezes, podemos ter objetivos e formas de funcionar distintas, por isso considerados fundamental manejar os tempos e a informação apartir deste grupo de investigação inicial.

Por que temos que ser sujeitos políticos ativos na investigação?

A maioria dos casos se iniciam por suspeitas do entorno. Podemos e devemos tomar medidas a respeito. Temos os meios e capacidades para poder investigar essas suspeitas sem depender de ninguém, dando a visão política que corresponde e sempre subordinada aos interesses militantes e a nenhum outro. Sabemos que os infiltrados não desmascarados se transferem para outros grupos e assembleias. Por isso, temos a responsabilidade política de investigar, visibilizar e atuar diante de casos de suspeita.

Ter suspeitas não é suficiente, já que por si mesmas elas nunca justificam a propagação de rumores. Se há suspeitas fundamentadas, é responsabilidade do grupo que está investigando contribuir com provas sólidas que respaldem suas afirmações. Devemos evitar acusar de forma infundada sem ter tido uma boa investigação. Esse comportamento, sem as comprovações necessárias, pode provocar a destruição de grupos e causar danos políticos e pessoais irreparáveis.

Nesse manual colocamos informações, padrões comuns, pautas e recomendações sobre possíveis problemas com os que você pode encontrar ao iniciar uma investigação, assim como possíveis medidas de segurança para evitar que se infiltrem. Boa parte do texto consiste nas experiências dos casos mais recentes do estado espanhol e nas boas práticas desenvolvidas durante a última década no Reino Unido.

Suspeitas

Você tem suspeitas?

Pode parecer uma forma estranha de começar a tratar do tema, mas se perguntar onde e quando começaram as suspeitas é um bom ponto de partida. Não suspeitamos de uma pessoa porque sim, costuma existir razões pelas quais existe uma inquietação, uma sensação de algo estranho.

Como militantes não somente desenvolvemos nossas habilidades teóricas ou de agitação, mas também somos capazes de observar e analisar nosso entorno e, em alguns casos, também de gerar um instinto sobre a gente que nos rodeia. A maioria das suspeitas podem começar quando observamos a vestimenta, suas opiniões políticas, suas redes sociais, a falta de raízes, um vazio na sua história de vida ou simplesmente que é uma pessoa estranha que não encaixa. Não esqueçamos que os movimentos sociais e políticos atraem a todo tipo de personalidades e que, portanto, as suspeitas nesse nível podem ser muitas e seguramente serão infundadas. Mas é útil reconhecer quando e porquê começaram essas suspeitas.

Outra forma de perspicácia provém da revisão retrospectiva uma vez lidos os casos que vão saindo. Ou seja, ao se dar conta meses ou anos depois que um (ex) companheiro encaixa bastante bem no padrão, mesmo que possa ter sido um grande militante que fez um monte de ações, inclusive algumas ilegais, e que enquanto era teu companheiro, você poderia jurar que não era um infiltrado.

Adicionamos uma circunstância que também vem sendo muito repetida nos casos tanto no estado espanhol quanto no Reino Unido: a saída abrupta, inesperada e inexplicável do companheiro (logo infiltrado) da militância, normalmente alegando questões familiares graves (doença de um familiar) ou laborais (mudança de trabalho, transferência…)

Sejam quais sejam as suspeitas que tenhas, é um ponto de partida válido. Mas também temos que ser conscientes de que são justamente isso: um início. E como viemos repetindo e repetiremos a longo de todo documento, o fato de coincidir com vários dos padrões que contamos não é prova de nada e muitos deles são muito habituais nos nossos entornos. Não esqueçamos que todas suas atuações estão pensadas para encaixar com a realidade e não levantar suspeitas, pelo que são inclusive situações habituais.

Como atuar a partir de ter a suspeita é o importante.

Prepare-se para que se demonstre o contrário

Se se colocam dúvidas sobre o comportamento ou o passado de alguém isso não significa que essa pessoa seja um infiltrado. Existem muitas razões legítimas para que alguém oculte seu passado, atue de forma imprevisível e/ou desapareça de golpe. É vital que se entre no processo com a mente aberta e que estejamos preparadas para que a realidade nos demonstre que estamos equivocadas.

Sempre é melhor ser capazes de “limpar de suspeita” de alguém que confirmar os seus piores temores. Encarar a investigação assumindo que é melhor que haja um resultado positivo e que, portanto, você tenha se equivocado, que assumir diretamente o pior.

Começar a investigar com a firme convicção de que alguém é um infiltrado, quando na realidade não é, fará que você tente o impossível para provar algo que é falso, com a perigosa consequência de destruir a reputação dessa pessoa no processo. As vezes o fato de que não se encontrem provas contra a pessoa é simples porque não há.

Prepare-se para não encontrar respostas

O mundo da infiltração policial é um mundo intrínsecamente reservado, e não se poupam esforços para que se continue assim. Não existe a varinha mágica que proporcione respostas claras. Os atuais descobrimentos dos infiltrados policiais são a exceção, não a norma. Vários deles foram descobertos fruto de casualidade somado a suspeitas do entorno, erros do sistema e vazios de relato. No Reino Unido passaram décadas nas que nem sequer existiram evidências firmes nem respostas claras, depois de anos de investigações.

O grupo de investigação

Nossa experiência confirma que as suspeitas que provém independentemente de várias pessoas são as que vale a pena considerar. Através dessas suspeitas coletivas é quando podemos formar um grupo de afinidade que leve a cabo a investigação. Esse enforque também evita as situações nas que uma só pessoa consegue persuadir a outras de que leves suspeitas constituem provas definitivas.

Nos grupos costumam funcionar os freios e os contrapesos: uma ação ou situação que parece suspeita a uma pessoa pode ter uma explicação natural quando alguém com mais conhecimento da pessoa ou da situação a explica.

Quando um grupo começa a investigar é importante que desde o princípio existam algumas pautas: Com quem pode se falar do tema? Como assegurar a confidencialidade e a discrição? O que será feito se comprovam ou refutam as suspeitas?

Perguntar da vida de alguém que você considerava companheiro de militância ou amigo nunca é fácil. Mas pode ser útil introduzir no processo alguém de confiança, mas que não tenha laços com a pessoa suspeita, e que possa orientar o resto. Essa pessoa pode ter diferentes papéis, como se assegurar de que o processo siga o seu curso, ou ajudar a alguém a gestionar suas emoções tomando algum tipo de responsabilidade, ou inclusive ajudar a fechar a investigação se não está funcionando.

Uma tarefa igualmente importante é a de questionar as presunções e considerar as provas de forma crítica, por exemplo, ajudando o grupo a evitar assumir que tem mais provas das que realmente tem e seu perigo de tirar conclusões precipitadas.

Apesar de que é possível realizar esse processo de forma individual, as pessoas que realizaram investigações se deram conta de que preferiam ter um grupo ao seu redor.

O esgotamento

O esgotamento, infelizmente, é bastante comum nessas situações. É algo do qual raramente se fala ou se aborda da forma correta.

Esse esgotamento se associa normalmente com a sensação de perda de controle, inclusive certa obsessão. Então isso geralmente leva a uma falta de perspectiva, e de ver ameaças por todas as partes. A paranóia é uma manifestação comum que pode levar a uma caça às bruxas contra qualquer pessoa que alguma vez foi percebido que disse algo fora do lugar ou que haja atuado de forma diferente.

Entre atuar por instinto e reagir à paranóia há uma linha fina. E essa é outra das razões pelas quais um processo grupal é normalmente preferível, já que os sintomas de esgotamento podem ser reconhecidos e reduzidos.

Investigação

Como investigar as suspeitas?

1. Escreva as suspeitas

É um passo curto, mas não pode ser subestimado. Tomem um tempo de escrever as razões das suspeitas, ajuda a centrar e aclarar aquilo que gera uma inquietação. Também ajuda a avaliar a essência dos temores e apresentar as preocupações ao resto do grupo. Compartilha o conhecimento e compara notas.

Escrever tudo o que você sabe da pessoa pode ajudar, sobre tudo aquilo que inicialmente provocou as suspeitas. O objetivo é poder ter uma visão o mais ampla possível e adicionar claridade.

2. Avaliar as suspeitas iniciais

A seção que segue está baseada nas técnicas utilizadas durante anos pela Polícia Nacional. A análise dos infiltrados descobertos permitiu elaborar esse documento e reconstruir uma boa parte dos padrões utilizados. O resultado do estudo dos seus métodos se condensou em 17 perguntas básicas e em mais dados com os quais trabalhamos.

São perguntas e dados que podem chegar a ser úteis em vários contextos, as respostas estão baseadas nas formas de funcionar do estado espanhol e em casos destapados entre 2022 e 2024, e em várias delas também no Reino Unido.

Podem se aplicar as perguntas e dados sobre a pessoa que suspeitas, ou usá-las como um ponto de partida. Se alguém “da positivo” em uma alta porcentagem delas, então é provável que as suspeitas tenham fundamento, mas ainda assim precisa-se seguir investigando e profundizando para confirmá-las.

3. Organiza os dados

A medida que a investigação segue seu andamento, organiza a informação de uma forma nítida (por exemplo, por temas). Desenha mapas, listas de contato, acontecimentos e lugares nos quais essa pessoa possa ter estado. Busca buracos no cronograma de acontecimentos e faz uma lista daquelas pessoas que possam ser capazes de preenchê-los. Ter a consciência certa do que temos e o que falta por investigar, sobretudo se o trabalho é coletivo, é fundamental.

Dedique-se o tempo necessário a descobrir e documentar o que é que você escutou e quem falou. Precisa-se levar em consideração que haverá pessoas e coletivos que não querem que seu nome apareça de forma pública ou que lhes relacione algo com a infiltração, mas suas informações sobre os casos podem ser importantes e deveremos tentar incluí-las na investigação. Avalie também a credibilidade das fontes, as pessoas podem ter ressentimentos ou preconceitos que influenciam as suas lembranças.

Lembre-se: mantenha seus materiais bem guardados! Imagina o terrível impacto que teria essa informação se chegasse a ser descoberta e a pessoa que você está investigando na verdade não é um infiltrado, ou se chega à polícia e compromete a investigação.

4. Confirme ou descarte suspeitas

Essa etapa precisa ser minuciosa por natureza: investigue cada aspecto do relato da pessoa, busca pistas e inconsistências. Trata-se de estabelecer se a identidade com a que ela se apresentou é real, ou pelo contrário, estamos tratando de um infiltrado que utiliza uma identidade falsa.

É muito útil revisar os perfis dos infiltrados publicados até agora para ter uma ideia de que tipo de detalles precisa de uma atenção. Mas lembra que cada caso é diferente e que alguns aspectos são mais importantes que outros.

Outras coisas a comprovar podem ser o alcance da sua existência fora do grupo no qual está ativo, e se os seus antecedentes pessoais, laborais, etc., são corretos. Você poderia tentar confirmar sua existência rastreando o seu passado: se realmente estudou nas escolas que disse que estudou, se trabalhou onde disse que trabalhou, etc.

O dia do seu aniversário sempre é um dado importante, e que nos nossos casos costuma coincidir a falsa com a real. Também os relatos sobre sua infância, família, trabalho, etc. Não é raro que os infiltrados utilizem dados da sua vida “real” para dar credibilidade para sua história, embora o grau deles no sentido de serem valiosos é relativo. Em alguns casos, esses fragmentos de informação tem sido decisivos, enquanto que em outros foram de pouca ajuda. É muito difícil prever o que vai ser importante e o que não, assim que o melhor é registrar absolutamente tudo.

Costuma ser um processo lento o de ir eliminando possibilidades. Trata-se de determinar se alguém é um “fantasma”, alguém que tudo parece indicar que existe, mas que se desvanece quando você tenta investigar seu passado.

5. Contate ou incorpore a mais pessoas ao grupo

Quando você chegar ao ponto em que acredite que suas suspeitas requerem mais confirmações, seguramente você terá que falar com outras pessoas que o conheciam. Esse passo pode requerir muito cuidado: as pessoas das quais são próximas da pessoa deverão conhecer os acordos do grupo e entender o quão delicado é o processo.

Sejam conscientes que as pessoas próximas da pessoa investigada podem ficar brabas, entrar em choque ou em negação profunda. Prepare bem essas pessoas para evitar que suas suspeitas sejam rechaçadas e que haja uma reação que se perca o controle, e também para evitar que meras suspeitas levem a expor pessoas sem mais investigações.

Assegure-se de que as novas pessoas tenham espaço e apoio para processar as notícias. Nesse passo você deve deixar nítido que a investigação, nesse momento, segue sendo somente isso, e que ainda não se chegou em nenhuma conclusão. Também precisa ser enfatizado os acordos de confidencialidade.

Para explicar que suspeitamos de alguém que pode ser um bom amigo ou ter uma relação com as pessoas que nos aproximamos para obter mais informação, precisa-se ter um alto grau de sensibilidade. Cada pessoa reage de uma forma diferente e nem sempre podemos prever como resultará a situação. Mas uma das coisas que nos faz distinguir das formas da polícia e do estado é que temos um sentido de responsabilidade com as nossas companheiras, inclusive se temos diferenças políticas com elas. Nesse ponto você deve considerar preparar o apoio que tanto vocês quanto outras pessoas venham a necessitar.

Expressa as necessidades individuais no grupo de vocês e os mantenha sempre informadas sobre quem está fazendo o quê.

Veja o que cada pessoa está disposta a fazer. Algumas poderão querer estar envolvidas em todos os aspectos, outras poderão estar preocupadas que a investigação seja um “monotema” que deixa de lado o resto das suas atividades políticas, mas ainda assim estão interessadas nas decisões. Ainda, precisa-se estar informado de certas questões, como equilibrar necessidades divergentes (por exemplo privacidade e ir à ação) e sobre o risco de brigas e esgotamento.

Resultados da investigação

É provável que a investigação não leve a resultados definitivos. A certeza absoluta sobre policiais infiltrados somente se comprovou quando se descobriu o seu nome real. Em alguns casos isso se revelou por descuidos e erros do infiltrado em questão que possibilitaram descobri-lo, como no caso de Dani, que presenteou um pendrive a um militante que fazia parte do seu coletivo pensando que tinha apagado a informação que tinha anteriormente no dispositivo. Conseguiram recuperar essa informação e eram fotos suas com o uniforme da polícia na Academia de Ávila, fotos com os seus companheiros policiais, etc. Em outros casos, a capacidade do entorno de seguir todas as pistas possíveis e fazer boas investigações permitiu revelar suas identidades.

Continuando, enumeramos os possíveis resultados das investigações:

1. Que se demonstre que não é um infiltrado

No melhor dos casos, podemos eliminar as suspeitas sobre o indivíduo em questão. Mas não basta somente chegar a essa conclusão e dar por finalizado. Temos que comunicar nossas conclusões a todas as pessoas que conversamos sobre o tema. Insistimos que não podemos destruir a reputação de uma pessoa mediante insinuações ou permitindo que persistam os rumores. Haverá que decidir também se vai existir uma conversa ou não com a pessoa investigada.

Para algumas delas significará um grau de transparência a se valorizar, mas a outras pode-se tomar como algo ruim. Outros grupos decidiram simplesmente não mencionar a investigação, algo que pode ter o inconveniente de que a história perdure.

Dependendo de quanto tempo foram extendidas as suspeitas entre as pessoas o tema pode voltar a surgir.

Lembre-se de que se o material reunido cai nas mãos erradas, essa informação poderá ser usada contra a pessoa investigada. Assim que se comprovou que as suspeitas são erradas, destrua a informação reunida.

2. Não estamos seguras

O mundo da infiltração policial, delatores, cagüetas, confidentes e espiões privados é difícil por natureza. Está dirigido por estruturas estatais com profissionais e mecanismos que fazem todo o possível por ocultar atividades e criar capas. Muitas de nós podemos ter motivos legítimos para não sermos completamente abertas sobre nosso passado ou nossas histórias pessoais. Se a isso somamos que nossos movimentos políticos tem cada vez mais interiorizada a cultura de segurança e do respeito à privacidade dos demais, nos encontramos com uma situação na qual reconhecer a um policial infiltrado é bastante difícil.

Se você suspeita de alguém que está ou esteve nas suas assembleias ou coletivos, deverá assimilar que há muitas possibilidades de que você nunca saiba se essas suspeitas são ou foram infundadas.

Cabe a possibilidade de que você esteja colocando o foco na direção equivocada: talvez o problema esteja em outra pessoa do grupo (que possa estar difundindo rumores para assegurar que continue sem ser descoberta), ou que o problema seja que as pessoas do grupo sejam despreocupadas sobre a segurança, ou que o grupo esteja sujeito a vigilância tecnológica. Em qualquer um dos casos, talvez o melhor seja, por um momento, deixar as suspeitas de lado. Pode-se tratar o problema apartir de outras perspectivas: considerar o que faz o seu coletivo ou assembleia e quais são os riscos de tomar essa direção, ou se as infiltrações evitam que vocês continuem levando a cabo a ação política com os métodos que escolheram.

Sugerimos que uma boa forma de tratar o tema é ser consciente das necessidades de segurança, e nos acompanharmos ao máximo nesse sentido. Ter um debate aberto e honesto sobre possíveis ameaças para o seu coletivo e que medidas vocês podem tomar para neutralizá-las.

Em muitas situações vocês não vão estar 100% seguras de que alguém seja um infiltrado. Isso as deixa frente a desagradável decisão do que fazer a seguinte. Por exemplo, no contexto do “Public Inquiry into Undercover Policing”, o Undercover Research Group e outros coletivos fizeram públicas informações sobre infiltrados que, apesar de não existirem provas definitivas, consideraram ter indícios suficientes para confirmá-lo. Nesses casos, as pequenas dúvidas que tinham os levaram a limitar a informação que publicaram: decidiram não publicar fotos nem nomes completos.

No estado espanhol há casos parecidos mas nesse momento decidiu-se por não publicar até ter provas definitivas. Um exemplo poderia ser o caso de Marian, que foi expulsa de “Madres Contra La Represión” em 2021 mas que até 2024 não havia sido demonstrado 100% com provas sua verdadeira identidade.

3. Se vocês estão no caminho certo

Se vocês encontraram provas definitivas, ou provas indicativas tão importantes como para não poder desviá-las, precisam pensar bem nos seguintes passos. Quase sempre é uma boa ideia fazê-lo público, já que a maioria dos infiltrados estão ativos ou poderiam ser potencialmente ativos de novo em mais territórios e movimentos do que podemos pensar. Esses grupos também podem se ver afetados e devem conhecer o caso.

Fazer pública a informação requer sensibilidade. Sugerimos os seguintes passos a seguir:

  1. Avisa antes aquelas pessoas que tiveram contato com o infiltrado. Talvez não sempre seja possível, mas é importante fazer um esforço nesse sentido. É horrível descobrir que um antigo companheiro, namorado ou amigo era um policial infiltrado vendo sua foto na internet ou nas notícias.
  2. Tenha em conta quais anonimatos precisam ser protegidos e assegurados de que todas as pessoas que conheceram o infiltrado sejam conscientes da necessidade de não falar detalhes pessoais sem a sua permissão, como os nomes reais das pessoas envolvidas (algo particularmente importante para as pessoas que tiveram fortes vínculos, do tipo que seja, com o infiltrado).
  3. Preparem todas as provas e as gestionem, se puderem, com meios alternativos como La Directa ou El Salto para que o publiquem e dêem a voz midiática. É importante que seja assegurado o contato com jornalistas que entendam as suas necessidades e o efeito emocional que esse tipo de questões podem ter sobre as pesosas, ainda mais se certas pessoas tinham laços estreitos com o infiltrado. Nos referimos a manejos de tempos, do conteúdo da publicação, etc. Uma boa prática também é detalhar ao máximo as atividades nas quais o infiltrado participou assim como sua história inteira desde que entrou, para que outros grupos e pessoas possam contextualizá-las: as lembranças dos nomes e caras podem se dissipar. Dessa forma podemos ajudar ao resto de entender de quem se está falando e ainda localizar pontos comuns com outros casos que ainda estão sem investigação.
  4. A gestão dentro do grupo desse processo é básica. Precisam ter ferramentas de apoio preparadas para aquelas pessoas que serão as mais afetadas pelas consequências. Na nossa experiência, vem sendo fundamental contar com o apoio de centros especializados em atenção a vítimas de violência política, maus-tratos e tortura como Sira.
  5. Desencoraje sempre que possível as respostas do tipo “Eu já sabia”. Nunca ajudam, sobretudo não ajudam as pessoas afetadas. Tenham em conta que talvez sigam lutando com sentimentos de culpa, auto-ódio, etc. e são coisas que podem demorar anos em se resolver. Ainda, o que reflete é medo, insegurança e não aceitação. É evidente que se essas pessoas “já sabiam” e não disseram e nem fizeram nada, seriam tudo menos companheiras.

Consequências e Aprendizagens

O que vocês poderiam fazer se descobrem que tinham um infiltrado entre vocês?

Em geral, devem ser discretas, já que nessas circunstâncias não somente está em risco a propagação da paranóia, mas também de que a pessoa em questão fique sabendo das suspeitas contra ela. Se isso acontece, o mais seguro é que apaguem seu rastro e desapareçam antes de poder confrontá-las.

A maioria dos nove casos aqui tratados foram descobertos em processo de desativação do infiltrado. Eles já não estavam vivendo nas cidades onde estiveram infiltrados mas sempre deixaram a porta aberta para voltar mantendo contato virtual ou através de mensagens ou chamadas.

Tenham em conta que qualquer investigação, sem importar seu resultado, pode danificar as redes de confiança dentro do grupo. Sobretudo depois da denúncia pública, isso pode ser um problema se algumas das pessoas se sentiram excluídas do processo ou ficaram brabas se não tiveram a oportunidade de ter um peso nas decisões.

Uma vez que acabada a investigação (e repetimos que nem sempre poderá se obter 100% de certeza), seu grupo talvez tenha que trabalhar duro para reestabelecer a confiança entre as pessoas que o compõem.

Um infiltrado recém descoberto pode provocar importantes danos pessoais na sua fuga da situação. O impacto de um descobrimento de tal calibre pode dividir os grupos se não temos as provas preparadas para explicar o porquê da investigação. Se não temos todas as provas também é possível que o infiltrado tente colocar o movimento ou a outras pessoas ou organizações contra o grupo investigador, ou que utilize sua fuga para causar fricções e lutas internas.

Apoio-Mútuo

Investigar e desmascarar um infiltrado tem impactos emocionais profundos. O estado, por exemplo, dá apoio psicológico aos infiltrados, e nós deveríamos ser conscientes do que pode implicar uma investigação.

Vocês devem se assegurar, em todas as etapas do processo, que tenham em conta as necessidades emocionais das pessoas afetadas, também das pessoas que investigam, embora no nosso caso, éramos as mesmas.

Aprendizados na hora de proporcionar apoio emocional durante a fase de investigação

No processo de investigar os infiltrados, a confiança em si mesma e em como se percebe as demais companheiras é uma das primeiras coisas que se perdem. Muitas vezes, se desvaloriza o impacto pessoal de se levar a cabo uma investigação.

Nos unirmos entre nós nos permite criar espaços em que nos juntemos e nos apoiemos mutuamente ao compartilhar experiências e ideias políticas. Essa é uma das nossas maiores forças. É importante saber que cada uma reage de uma forma diferente. As reações dependerão de qual momento se encontre cada pessoa e da sua relação com o infiltrado.

As pessoas mais próximas dele costumam não acreditar de primeira na sua enganação, e podem demorar muito tempo em entender o que aconteceu. Enquanto dura a investigação, é importante ter isso em conta para ir mostrando a informação e as provas pessoalmente para ajudar a processar as notícias.

Não apressem as decisões: as pessoas necessitarão sentir que suas necessidades são tidas em conta e por isso devem ter um espaço para expressá-las.

Tenta deixar de lado antigas brigas pessoais e políticas que distraiam ou afetem a objetividade durante o processo de investigação.

Cada pessoa maneja a situação como pode, nos parece importante respeitar os desejos e preferências de todas. Algumas preferiam não saber nada, outras talvez já tenham muitas coisas na cabeça ou nas suas vidas para tratar do tema. Uma vez concluído o processo de investigação e os resultados se apresentem ao coletivo ou assembleia, podem se criar mal estares naquelas pessoas que não foram convidadas a participar do grupo de investigação. Se isso não se gestiona bem, pode ser um ponto delicado.

Paranoia

O fato de que você acredita que compartilha espaços, assembleias, coletivos e/ou tua vida com um policial infiltrado pode dar lugar a medos e paranoias. Podem ser sintomas comuns ver espiãos em cada esquina ou apontar a qualquer pessoa que em algum momento fez algo ligeiramente suspeito. Isso é algo com o que devemos ter cuidado. Podem influenciar muitas coisas mas é importante não se deixar levar pelos medos e tentar ser capazes de levar adiante uma investigação séria. A paranoia não ajuda, já que somente perturba o processo.

Se compartilhamos espaços e coletivos com pessoas que tem suspeitas e inclusive isso lhes gera paranoia, é importante que se sintam escutadas e compreendidas. Perguntar delicadamente o que é que acredita ou teme; escutar de forma sincera mas com cautela; desafiar qualquer discrepância com respeito e ser abertas ao fato de que pode que não se trate de paranoia mas sim de sérias preocupações.

Outro aspecto da paranoia é quando se disfarça de “consciência da segurança”. A segurança se trata de reduzir os riscos a um nível aceitável para poder seguir fazendo coisas; a paranoia é quando a situação sai do controle e impede de fazer algo, assumindo um medo geral diante de um estado e uma polícia aparentemente invencíveis.

As perguntas que propomos ajudam a aliviar parte da paranoia desde uma investigação tangível e o acompanhamento. Nos perguntarmos o que sabemos, o que temos medo e nos centrarmos nos dados reais, costuma ajudar a desmascarar infiltrados apartir da informação objetiva, sem revirarmos nos nossos medos. Tratar de reduzir os riscos para poder seguir com nossa atividade política.

O ponto está em analisar que tipo de coletivo ou assembleia é a sua, o quanto de aberta ou fechada vocês querem que seja, quais objetivos vocês construíram e em função dessas análises estabelecer protocolos de segurança adaptados de uma forma que todas se sintam cômodas.

Reflexões finais

Ironicamente, uma investigação como um bom processo pode ser inspiradora e fortalecedora, apesar de que descobrir um infiltrado é, como mínimo, desagradável. O material desse manual foi extraído de vários processos desse tipo e dos seus participantes. Em alguns casos, os grupos saíram fortalecidos, embora o caminho que percorremos, e que ainda percorreremos, muitas vezes seja pedregoso.

Ao escrever esse documento, nossa ideia não é fomentar a paranoia, mas sim reduzi-la. Muitas vezes se lançam acusações baseadas em rumores e especulações que somente ajudam aos nossos inimigos. Tentamos oferecer algumas ferramentas e técnicas que permitem que levem a cabo investigações profundas para acabar com os rumores e as más práticas e nos fortalecermos no processo.

Apesar de toda a força com a qual a polícia e o estado nos atacam enquanto classe trabalhadora organizada, e do profundo dano que nos ocasionou, não nos destruiu. Ceder ao fatalismo de que não podemos fazer nada permite que eles ganhem. Segue havendo muitas coisas que podemos fazer, ainda restam muitos horizontes pelos quais lutar, e muitas batalhas por travar.

As táticas mudarão, se adaptarão e se acomodarão sobre a realidade e o terreno a medida que formos encontrando soluções, mas o mais importante é aquilo que nos fez começar a luta política e os objetivos emancipatórios que buscamos.

Também sabemos agora que o uso de infiltrados tem efeitos secundários inesperados, como o arquivo de casos judiciais ou a ajuda indireta a certas ações. Sabemos de casos que a presença de um policial infiltrado permitiu proteger a militantes, já que o agente não podia atuar sobre base de certa informação por medo de ser descoberto ou porque também estava imerso em uma causa judicial com a sua identidade falsa de militante.

Por último, uma pergunta frequente que nos fazem é como voltar a atrair pessoas novas às organizações. Como combinar abertura e segurança? Como dissemos antes, não há uma resposta única. O que importa é criar, desde o princípio, uma cultura que responda às ambições da organização e que se atente a elas. Não tenham medo de perguntar, mas sejam sinceras do porquê o fazem. Se vocês acreditam que necessitam um maior nível de segurança ou secretismo, averiguem quais são as ameaças específicas que enfrentam e planifiquem como abordá-las para minimizar o risco. 100% de segurança não existe, mas sempre há formas de encontrar soluções.

O estado pode investir muito na sua tentativa de nos parar, mas milhares de ações foram realizadas, muitas organizações estão tomando precauções e tendo êxito no seu funcionamento, e isso é uma prova nítida de que podemos ser mais espertas que eles quando nos levamos a sério.

Material Para Investigar

Primeiramente gostaríamos de destacar antes de começar essa seção a grande importância que tem ler cada artigo que saiu publicado nos meios sobre os casos destapados. Pudemos descobrir vários deles precisamente lendo os primeiros, já que detectamos os padrões em comum e muitos deles coincidiam com as pessoas suspeitas. Para centralizar essa informação anexamos um link que leva diretamente ao artigo (em espanhol e catalão).

As 17 perguntas com as que trabalhamos

1. Não há antecedentes vitais? Falta de raíz?

Geralmente, o infiltrado tem poucos antecedentes vitais. Muitas vezes costumam ter uma “história”: de onde são e porque foram embora. Os detalhes costumam ser escassos, e há pouca sobreposição entre o seu mundo anterior e o seu mundo militante. É raro se encontrar com amizades ou ver fotos da sua vida “anterior”, embora fale delas, ou o suspeito diga que vai encontrá-las. Como são indentidades criadas para essas infiltrações, carecem de passado e não encontraremos nada sobre a mesma em nenhum registro ou internet (salvo o que puderam fazer com a infiltração já iniciada, como por exemplo carreiras esportivas às que tenham tido ou matrículas em universidades).

Na imensa maioria dos casos sobre os quais nos baseamos esse texto, a cidade de origem do infiltrado não era a mesma na qual se infiltravam. Supomos que para evitar que se pudesse reconhecer que o seu passado possa ser contrastado mais facilmente (Sérgio era de Santiago e se infiltrava em Madrid, Dani de Mallorca e o faz em Barcelona, María também era de Mallorca e se infiltrava em Girona, etc.) O caso de Marian seria a exceção já que era de Aranjuez e vivia sua vida falsa e real também ali.

Costumam justificar sua transferência a uma cidade diferente da que vivem por motivos laborais ou de estudos (nada incomum, a imensa maioria das pessoas faz por isso).

Advertência: no caso de Girona foi confirmado que María apresentou familiares e amigas reais (sem ser funcionárias do estado) às militantes dos espaços que se infiltrou. Supomos que sobre o pretexto de reforçar sua história e assegurar uma maior confiança do entorno na qual estava se movimentando. Quem suspeitaria de uma amiga/militante/namorada se conhece a sua mãe e amizades? Por isso é importante lembrar detalhes dessas pessoas, endereços, etc. no início da investigação.

2. Suas ideias políticas são quase inexistentes ou pouco desenvolvidas?

Na maioria dos casos, os infiltrados tem pouco o que dizer em relação a política do movimento no qual se infiltram. Embora mostrem interesse em escutar os demais, não contribuem com nada e, em geral, evitam ou se distanciam desses debates. Em contrapartida são “militantes modelo” na sua implicação em questões logísticas, tesouraria, em assistência a assembleias, ações, etc.

Quando demonstram interesse, costuma ser superficial, ou desde a posição de escuta ativa como modo de aprendizado e os livros e o material de referência que possuem são material popular que mostram pouca profundidade ou atitude.

Advertência: isso é algo que poderia ser aplicável a muitas pessoas do movimento em geral, mas em certos círculos essa pouca profundidade é destacável.

3. Alguém conheceu sua família?

Alguns infiltrados nunca falam sobre a sua família, enquanto que outros fazem muito. No entanto, as oportunidades de conhecê-los nunca chegam, sempre há desculpas. Os infiltrados podem mostrar fotos e outros materiais que indiquem a existência de supostos membros da sua família, e comentar que tem relações estreitas com ela.

Outros inventaram histórias sobre relações abusivas (e se utilizaram delas para gerar confiança), mas falam incoerentemente de como vão vê-los. As vezes as crises familiares, como um pai gravemente doente, se utilizam como desculpa para se ausentar durante longos períodos de tempo.

Como comentamos em várias ocasiões ao longo do manual, há padrões comuns mas também exceções. Nesse caso, a infiltrada de Girona apresentou sim sua família e amigas reais a sua namorada, inclusive indicou o nome e profissão real da sua amiga e da sua mãe, e ainda levou ela na casa onde morava realmente com a sua mãe. Não somente se conheceram em uma ocasião, mas a mãe da policial infiltrada teve um papel ativo ao longo de toda a infiltração, via telefone e videochamadas cotidianas.

E mais, mesmo que não se produza nenhuma aproximação ao seu entorno, algumas das referências familiares com as que fazem alusão durante a infiltração podem sim coincidir com a sua vida real. Por exemplo, Sergio dizia que tinha um irmão mais velho que trabalhava de bombeiro em Santiago, e era verdade.

4. Seu trabalho ou sua vida “pessoal” os faz se ausentar por longos períodos de tempo ou muitos períodos curtos?

Parece que muitos infiltrados tem “trabalhos” que os obrigam a se ausentar durante longos períodos de tempo, até várias semanas seguidas (normalmente no verão). Esses trabalhos ou ausências pessoais os proporciona dinheiro (por exemplo, no caso de Sergio, quando ia a Galícia ver a família e voltava dizendo que sua avó tinha lhe dado 500 euros, o que permitia justificar estar parado um tempo; ou Maria costumava se ausentar no verão e dizia que era para trabalhar em um club náutico de Mallorca, de maneira intensiva e poder assim se sustentar economicamente).

5. Sua casa parece pouco habitada?

Um tema comum é o pouco acolhedoras ou pouco habitadas que eram as suas casas, embora com alguma exceção. Havia alguns materiais dispostos de forma orquestrada na casa que queriam significar “militante político”. Também parecia evidente a falta de um “toque pessoal” ou de bens materiais. Um exemplo muito nítido é o de Carlos: não tinha apenas decoração, dava a sensação de que ali realmente não vivia ninguém, saía água marrom da torneira. Também a de María, que viveu três anos em um apartamento turístico sem mudar nem um quadro, apartamento convertido na época em aluguel de residência habitual devido à falta de turistas durante o COVID.

As casas que vivem, ou que dizem que vivem, sempre contam com um ponto de “sorte” na hora de consegui-las: é o apartamento “do seu tio”, “de uma amiga da sua mãe”, “o seu chefe deixou por um aluguel barato”, etc.

Embora também haja casos que o infiltrado nunca chegou a subir nem a mostrar a ninguém o apartamento onde supostamente vivia.

Caso você saiba o endereço exato, é um bom tópico que comece a puxar tirando a nota simples[1] da casa.

6. Qual é a sua forma de entrar na militância ou no seu entorno?

Nos referimos ao primeiro contato ou experiência que o infiltrado conta na hora de entrar ao coletivo político. A maioria dos casos foram em atividades abertas e de conteúdo político limitado: bancos de alimentos, ginásios populares, clubes de leitura feminista… Isso lhes serve de “aval” na hora de começar a militar em um espaço mais politizado. Costuma gerar mais confiança que dizer que nunca tinha estado em nada. É muito importante localizar o momento exato no qual aparece e o lugar que o faz pela primeira vez.

7. Tem habilidades de condução fora do normal ou dispõem de carteira de dirigir com quase todas as permissões?

Algo que se comenta de muitos infiltrados é a sua habilidade para conduzir acima da média, o que não é de estranhar tendo em conta os requisitos exigidos a respeito para ser da polícia nacional.

Nota: Essa pergunta está especialmente indicada no contexto de Reino Unido, onde os infiltrados eram agentes com uma longa trajetória e experiência nos corpos policiais e militares, onde se adquirem essas habilidades de direção. No nosso contexto atual, os infiltrados correspondem a outro perfil (agentes que acabaram de se formar) e, portanto, pode ser que não tenham essas habilidades, embora na sua identidade real tem como mínimo uma carteira de habilitação porque é um requisito para as posições de policial nacional. Sergio por exemplo tinha todas as categorias da carteira de habilitação, o qual serviu para realizar muitas tarefas logísticas nas quais se necessitava dirigir caminhões ou furgões.

8. Qual é a sua atitude ou personalidade?

Costumam comentar o encanto, a simpatia e a amabilidade em geral dos infiltrados. As pessoas o vêem dispostos a fazer todo o possível por ajudar. São muito conciliadores, fogem de qualquer tipo de polêmica (própria ou alheia).

A maioria deles são pessoas muito empáticas e acessíveis e com grande audácia para entender e lidar com as emoções, conflitos e crises pessoais que os rodeiam. Costumam se oferecer para escutar e ser um apoio emocional, mas sempre com cautela, não sendo nunca intrusivos na intimidade do outro.

Isso não significa que em determinados momentos não possam adotar outro tipo de estratégias na hora de se posicionar em conflitos porque assim os recomendam os seus superiores.

9. Tem problemas com dinheiro?

Muitas vezes estão dispostos a ajudar as pessoas com dinheiro, por exemplo, renunciando os gastos com a gasolina ou a convidar a rodas de comida ou bebida. As vezes alegam que os gastos já estão cobertos de alguma forma, por exemplo, através do seu trabalho.

Não são necessariamente ostentosos, inclusive podem se queixar da sua situação econômica ou aparentar a necessidade de serem cuidadosos com os gastos para não destacar-se, mas ainda assim parecem ter sempre acesso ao dinheiro.

10. Centram as relações em pessoas-chave ou nas que rodeiam essas pessoas-chave?

É frequente que, quando se envolvem no grupo, “se dirijam” às pessoas chave ou se façam muito próximos a elas, tanto pessoalmente quanto na militância. Isso muitas vezes provoca que os vejam desde fora como a “pessoa de confiança de X”, o qual vale, ainda mais para se aproximar do seu objetivo de conseguir informação, para apagar possíveis suspeitas ou para ir ganhando credibilidade na organização.

11. Você detectou uma coisa estranha ou contraditória?

Nas nossas investigações encontramos uma série de traços distintivos que valem a pena prestar atenção quando apresentados:

  • Documentos com nomes diferentes dos que conhecemos (às vezes é algo fácil de explicar, nem sempre algo assim é injustificado).
  • Redes sociais verdadeiras: a Mavi foi descoberta em parte por isso. Dizia que ia a uma escola de ballet em Granada e o nome que deu correspondia a uma de Almería, sua verdadeira cidade de origem. Encontram suas RRSS verdadeiras e não coincidem sobrenomes reais e falsos. María tinha explicado que ofereceu seus serviços de cuidadora de cachorros através de um aplicativo concreto. Esse perfil existiu de verdade e permitiu corroborar a casa verdadeira dela, dado que posteriormente possibilitou revelar sua identidade.
  • Não ter as habilidades que dizem ter, sobretudo se isso se relaciona com o seu suposto trabalho. Ou não saber o suficiente sobre um tema que dizem que lhes interessa muito. Por exemplo, Ramón y Mavi diziam que nunca tinham feito artes marciais, e nas suas primeiras aulas chamaram atenção precisamente porque se notava que tinham conhecimentos sobre as mesmas.
  • Reagir diante de situações surpresa de formas que indicam treinamento. Foi comprovado que os infiltrados tem uma equipe detrás 24hrs por dia e são monitorados através dos microfones dos seus dispositivos eletrônicos (relógios, celulares, etc.) Soubemos de situações que havia muito barulho onde estava o infiltrado e a sua equipe, e não podendo saber o que estava acontecendo, davam aviso a patrulha mais perto para que se aproximasse para comprovar com a desculpa de um “controle rotineiro” para não levantar suspeitas. Ainda, em vários casos também foi comprovado que em algum dos apartamentos do mesmo edifício onde viviam os infiltrados estavam habitados por policiais, e nos que não, havia uma delegacia de policia nacional perto.
  • Reagir com uma preocupação desmedida, mesmo que dissimulada, diante da perda do controle da informação ou diante da incertidão de situações imprevistas, mudanças de última hora, planos improvisados, etc. Podemos identificar em muitas pessoas esse nervosismo diante da perda do controle, mas pode ser algo a ter em conta durante a investigação.
  • Uma situação que chamou muito a atenção das companheiras de Valencia que militavam com Ramón, tendo em conta seu perfil de militante, é que se depilava as sobrancelhas.

12. Sabe de algum caso judicial estranho ou de pouco interesse por parte da polícia?

As vezes, os agentes encobertos tem sido inexplicavelmente tirados de um caso judicial. No caso de Sergio nos consta em ao menos duas ocasiões, e outra mais no caso de Carlos. Três denúncias que nunca chegaram ao resto e que, casualmente tampouco se tem acesso ao documento do qual se argumenta o arquivo ou a causa. Pode ser que a sua organização haja experimentado uma notável falta de interesse policial durante o período que o infiltrado formava parte do seu grupo, ou que as pessoas não eram presas quando parecia ser óbvio que isso ia acontecer. Sabemos agora que os responsáveis da infiltração as vezes olhavam para o outro lado no transcurso de ações ilegais e que se distanciavam da ação para não ter que prender ninguém.

Advertência: o contrário também poderia ser verdadeiro.

13. Desapareceu de repente e evitou qualquer contato? (desconexão/extração)

Essa pergunta poderia ser uma seção sozinha, já que a “estratégia de saída” ou “extração” é um dos aspectos da operação para quem investiga uma possível infiltração policial. Em todos os casos que conhecemos, os infiltrados cumpriram um “trabalho” de vários anos (uns duraram menos porque foram descobertos, como Mavi, e outros mais, como Sergio, que estava há 7 anos, ou Marian, que chegou a estar 35 anos), e logo foram embora de forma relativamente abrupta (aparece um trabalho, um familiar teve uma doença grave, etc).

É bastante revelador ver como uma e outra vez se utilizam duas estratégias, as vezes combinadas:

  • Mudança de trabalho.
  • Familiar com grave doença. (São vários os casos onde isso acontece. Por exemplo María disse que o seu pai sofria um câncer super severo, mesmo com um diagnóstico de possível recuperação. Essa situação, além de ser usada para reforçar a empatia com as militantes, serviu para se retirar progressivamente do entorno.)

E o que é mais importante, desaparecem por completo da sua vida militante. Sobre a sua vida social ou pessoal, mantém algum contato isolado, quase sempre online. Por exemplo, Carlos e Sergio seguiam mantendo ativo o número de telefone da sua identidade falsa, inclusive depois de meses e até dois anos desde que se “desconectaram”. Embora María foi a que manteve um contato online de uma forma mais intensa. Entendemos que isso obedece a manter um fio de conexão com os entornos onde estiveram infiltrados por se em algum momento quisessem voltar.

Dentro dessa seção, há duas questões muito relevantes e que devem ser prestadas muita atenção nos seus processos:

  • Relevos e movimentos: em vários casos detectamos que se fazem inter-relações ou “substituições” entre os infiltrados. Por exemplo, Carlos e Lucia entraram para ocupar o lugar que deixou Sergio ao ir embora das duas organizações que estava envolvido. Também sabemos que em outros casos outro infiltrado fez o caminho anterior, mesmo que ainda não estamos em disposição de falar sobre isso. Sobre os movimentos, é importante ter em conta que podem ir se movimentando nos entornos, inclusive mesmo que hajam sido expulsos por suspeitas mas essas não foram a público. Um exemplo de movimento é o de Carlos, que tinha que ir a entornos de Vallecas porque o coletivo juvenil onde estava infiltrado se dissolveu. O Ignácio José e o Ramón, que chegaram a participar, inclusive simultaneamente, em várias organizações e espaços ao mesmo tempo.
  • Reações uma vez que são descobertos: Mesmo que possa parecer muito óbvio, nenhum dos infiltrados descobertos reconheceu que efetivamente o era. Nem diante da imprensa que os contatou previamente antes de publicar, nem diante das pessoas que eram suas “companheiras” e “amigas” em todo tipo de situações. Negaram, apesar de ter provas contundentes como fotos ou vídeos deles vestidos de polícia. Supomos que o fazem por um protocolo policial, gerando ainda mais danos, se possível, do que os já produzidos. A única exceção foi o caso de Maria, que reconheceu por uma videochamada que era polícia, e ainda explicou como uma delegacia a contatou para ser infiltrada uma vez empossada e de confessar que havia mais policiais infiltrados em cidades como Málaga, Salamanca ou Granada.

14. Redes Sociais

Outro padrão comum com o qual encontramos é que as redes sociais que usam os infiltrados são criadas pouco tempo antes de iniciar a infiltração. Na hora de investigar uma suspeita, a parte das redes sociais é muito importante. Além de ver quando foi criada, precisa-se dar atenção aos seguidores/amigos que tem, porque é estranho que alguém somente tenha as pessoas que acaba de conhecer e não haja ninguém do seu passado (conecta com a falta de raíz da pergunta 1), inclusive pode-se ver no Instagram quantas vezes a pessoa mudou o nome de usuario.

Evidentemente, e como com cada padrão em comum, uma pessoa que não seja infiltrada pode ter boas razões para não ter redes sociais até esse momento e criar novas, ou ter rompido com o seu passado e não conservar amizades antigas… Mas é um fator a ser levado em consideração.

15. Fotos

Em geral os infiltrados são muito reativos na hora de sair em fotografias, individuais ou grupais. Também são muito reativos em compartilhar fotografias suas ou da sua família, amigos, passado… Sempre alegam situações complicadas ou problemáticas que justificam.

Em vários casos (Sergio, María…) se comprovou que os infiltrados conseguiram muitas fotos de militantes com a desculpa de “fazer brincadeiras” ou “fazer memes” ou imortalizando encontros e momentos de ócio em um contexto de máxima confiança. Cuidado com isso.

Foi comprovado também que os infiltrados compartilham fotos entre eles pra se darem cobertura e se facilitar o terreno. Por exemplo nos casos de Ignácio José e Dani. Como comentamos nas histórias de cada um dos policiais, ambos estavam infiltrados em Barcelona e eram da mesma promoção, junto a María e Ramón. Pois bem, a polícia planejou as duas primeiras histórias das suas identidades falsas de tal forma que eram irmãos (um era Daniel Hernández Pons e o outro Marc Hernández Pons) por se acaso em algum momento se suspeitara de algum dos dois, poder dar como referência o outro como aval.

16. COVID

  • A pessoa que você está investigando estava militando quando se iniciou a pandemia? Como ela atuou? Comprovamos que os infiltrados que estavam no momento do início da pandemia casualmente voltaram aos seus lugares de origem justo uns dias antes da declaração do estado de alerta. Cada um com diferentes desculpas.
  • A pessoa que vocês estão investigando tem alguma das vacinas do COVID? Se sim, você pode pedir para que lhes mostre. Também comprovamos que nenhum dos infiltrados jamais mostrou esse documento (algum chegou a alegar que era antivacinas, questão excessivamente estranha inclusive nos nossos entornos). Portanto, segundo as explicações que dêem ou segundo sua reação diante do seu pedido do documento digital (passaporte COVID) também poderia ser um indício de suspeita.

17. Celulares

Outro aspecto muito interessante e com grande relevância: os números de telefone que usam os infiltrados. Corroboramos que os infiltrados das mesmas delegacias utilizam números adquiridos através de cartões pré-pago, e que coincidem na numeração. Por exemplo, María, Dani, Ignácio José e Ramón que eram da mesma delegacia (ou mesma seção da delegacia), seus números começavam por 631. Lúcia e Carlos também na mesma delegacia, tinham o 604209458 e o 604209448. O do Sérgio 654, e o de Marian 650.

Essa informação pode ser útil para poder fazer comprovações em alguma investigação que vocês estejam levando a cabo.

Dados importantes

  • Tem o mesmo nome na identidade real e na falsa (salvo Marc, que era Ignácio José, e Marta, que se chamava María Ángeles ou Marian). Costumam colocar nomes compostos (por exemplo Sergio na vida real e Sérgio Manuel na falsa, Lucía y María Lucía, Carlos y Juan Carlos…)
  • MUITO RELEVANTE: Tem a mesma data de nascimento na identidade real e na falsa.
  • Seu nome real está no Boletim Oficial do Estado (Boletín Oficial del Estado, BOE), e até 2022, a carteira de identidade. Devido a lei de proteção de dados agora não vem o número da identidade completo, o qual dificulta um pouco a investigação.
  • Começam a se infiltrar poucos meses de graduarse como policiais, então o BOE que precisa ser visto é o que corresponde a esse ano (por exemplo. Sérgio se graduou em maio de 2014 e em julho desse mesmo ano aterrizou em Moratalaz).
  • Estão um ano e pouco na Academia de Ávila, então também é um dado a ter em conta na hora de suspeitar ou não de alguém (pela idade da pessoa suspeita).
  • Criação de redes sociais falsas quase no momento de infiltrar-se.
  • Vídeos e fotos de graduações e das práticas que fazem uma vez que saem da Academia de Ávila (em Youtube, em notícias de internet, etc.) Sergio foi descoberto por isso.
  • Uma forma quase definitiva de contrastar uma identidade real e uma falsa que se esteja investigando é através de uma pessoa de confiança que tenha acesso a dados e comprove se coincidem as datas de nascimento da identidade falsa e da real.
  • Notas simples: com essa ferramenta podem se averiguar quem é o proprietário de uma casa ou local. Aplicação prática: se vocês suspeitam de alguém e conhecem o endereço em que vive, tira a nota simples da casa e vê quem é o proprietário e se está dentro da história que contou a pessoa investigada.
  • Estudos: Nos casos que saíram até agora se comprovou que alguns infiltrados se matricularam com suas identidades falsas na universidade e também que, ao menos dois, Sergio e Lucía, fizeram com a identidade real enquanto estavam infiltrados (para no caso de poder se apresentar às oposições internas do inspetor). Outro exemplo é o de Carlos e Dani: em ambos casos estudaram supostamente uma FP de manutenção e reparação de ar condicionados.
  • Busca pelo número de identidade (ou qualquer outro dado): você pode por no pesquisador da internet o DNI (identidade) real ou falsa do infiltrado entre aspas, e sairão os resultados que apareça em concreto essa informação. Por exemplo, graças a essa busca pudemos saber que Sergio tinha formação em Direito pela UNED durante a infiltração.
  • Nota de localização: é um documento de caráter informativo que emite o Registro da Propriedade através do qual se informa dos Registros da Propriedade nos que uma pessoa tem algum direito inscrito sobre algum sítio, fazenda, ou alguma propriedade. Com isso podemos chegar a saber as propriedades que tem o infiltrado e a localização das suas casas/casa através do BOE.
  • Busca por titularidade de veículos: é um tramite que se pode fazer online e somente é necessária a matrícula do veículo. Por exemplo, no caso de Marian, tinha uma matrícula de um veículo que haviam visto ela alguma vez e graças a issa informação obtida com a titularidade do veículo foi possível corroborar a identidade real.
  • Especialista em fotografia: Através de diferentes fotos do infiltrado, umas da sua vida real e outras da sua vida falsa, um especialista pode determinar se são a mesma pessoa, como fizeram El Salto e La Directa em um dos casos.
  • Redes sociais de suas identidades: em muitos dos casos, mesmo que pareça surpreendente e provavelmente fruto da sensação de impunidade que tem, os infiltrados e as pessoas falaram deles tem contas nas redes sociais (Twitter (novo X), Instagram, Facebook…)

Todos esses dados podem servir de ajuda para estabelecer um ponto de partida na investigação. Por exemplo, se sabemos a data concreta na qual começou a se infiltrar, e tendo em conta que quase sempre usam o mesmo nome em ambas as identidades, pode-se fazer uma primeira busca no BOE correspondente e selecionar a lista de todos que tenham esse nome. Muitos poderão ser descartados vendo redes sociais.

Se sabemos a data de nascimento da pessoa suspeita e conhecemos a alguém de confiança com acesso a dados, contrastar um por um para ver se coincidem as datas. Se conhecemos a direção concreta onde supostamente vive a pessoa investigada, tirando a nota simples ou averiguando o contato com o proprietário, pode-se tirar informação para contrastar histórias. Ou se diz que trabalha em um lugar concreto, nos aproximarmos o mais discretamente possível para ver se é verdade ou não.

No Youtube e internet há vídeos e fotos de eventos de policiais nomeados funcionários de carreira, e também quando começam a fazer as práticas em diferentes cidades. Mesmo que nos últimos anos as promoções são enormes (2000/3000 pessoas), talvez podem conseguir localizá-lo, como o que aconteceu no caso de Sergio. Os que tem as suas redes sociais com sua identidade verdadeira, sentem-se impune e as utilizam como se em algum momento não fôssemos poder chegar até elas. No caso de Carlos, uma das confirmações que ajudou a desobrir o caso foi localizar sua conta de Instagram porque seguia no perfil do ajuntamento do seu bairro.

Em definitiva, são múltiplas as pistas que temos que seguir tendo um mínimo de informação sobre a identidade falsa do infiltrado. Essa informação é útil consegui-la, por exemplo, durante um período de pré-militância. Nosso trabalho não é trabalhar como detetives privados, mas toda a informação (nome, sobrenome, telefone, lugar de estudos, endereço, lugar de trabalhos, militância prévias, lugar de origem, redes sociais, etc.) que se possa obter desse período pode facilitar uma investigação futura. Ainda que conhecer a pessoas novas deveria ser por uma questão básica de socialização, e não tanto (ou não unicamente) por segurança.

Possíveis filtros úteis (não infalíveis) na hora de incorporar e complementar a um período de pré-militância

Como comentávamos nas reflexões finais sobre o processo de investigação, a segurança 100% não existe, e cada organização terá suas próprias necessidades e prioridades a respeito tendo em conta sua forma de trabalhar, objetivos, etc. Com essas ideias não queremos fomentar a paranóia, nem que todos os espaços tenham que aplicá-las. Como falamos, cada organização terá sua autonomia. As recomendações, baseadas nas experiências que tivemos são as seguintes:

  • Pedir vida laboral (somente é necessário um código que você recebe por SMS).
  • Pedir data de nascimento. Nos casos de Sergio, Dani, Marian e Carlos comprovamos que a resposta dada no Registro Civil diante do pedido das suas datas de nascimento foi negativa, quer dizer: NÃO EXISTEM, as pessoas não tinham certificado de nascimento. Isso é uma grande diferença do Reino Unido, já que aí as identidades falsas dos infiltrados se obtinham de bebês falecidos. Nesse caso há duas situações:
    • A primeira seria que o investigado não soubesse o que está acontecendo e se pede para que ele saiba, Em teoria somente pode pedir a pessoa interessada mas se tem seus dados básicos (nome, sobrenome e DNI).
    • A segunda seria como método para prevenir infiltrados: se pede ao novo militante que solicite, em presença de mais integrantes do coletivo, sua data de nascimento. Mas os dados do contato são de vocês para que cheguem a vocês e não a ele/ela. Podem usar o e-mail ou correios.
  • Em geral, qualquer documento oficial que venha em mente que você possa obter sem que a pessoa investigada saiba, no pior dos casos, com o seu conhecimento mas que vocês possam manejar os tempos.

Há linhas vermelhas?

Os casos que saíram até agora nos permitem acabar com esses mitos ou linhas vermelhas sobre o que fazia ou não fazia um policial infiltrado.

Somos conscientes de que muitas pessoas acreditávamos que os infiltrados tinham um código de conduta, que havia coisas que não fariam. Apontamos alguns deles para poder nos conscientizar de até que ponto chegam e não descartar uma investigação.

Algumas pessoas acreditam/acreditavam que os infiltrados nunca:

  • Cometem atos ilegais.
  • Tem relações sexoafetivas com seus objetivos.
  • Tem trabalho com contrato (enquanto estão infiltrados). Sergio trabalhou vários meses em dois empregos com sua identidade falsa, provavelmente para afirmar sua história e acalmar possíveis suspeitas.
  • Estudam estando matriculados com as suas identidades falsas e reais.
  • Apresentariam a algum familiar/amigo real ao grupo no qual se infiltra.
  • Pessoas civis e alheias do corpo nacional de polícia poderiam formar parte de maneira ativa na infiltração, para sustentar ou proteger a identidade do infiltrado.
  • Teríam qualquer tipo de documento público com a sua identidade falsa (DNI, carteira de habilitação, segurança social, conta bancária, celulares, contrato de aluguel).
  • Parte de sua história inventada é real (María de Girona com sua família e amigas, ou Sérgio com seu irmão bombeiro).
  • Se tatuam coisas do “movimento”, como Dani ou Sergio.
  • Utilizam aplicativos como forma de aproximação às militantes ou entornos que possuem como objetivo.
  • Coletam mostras biológicas de companheiras sem nenhum tipo de consentimento, assim como provas biométricas.
  • Comprovamos que a polícia falsifica nomes de empresas (sem o conhecimento das mesmas) para os contratos de aluguel das casas onde vivem os infiltrados.

Sabemos que todas essas coisas foram feitas por policiais infiltrados, e seguramente não sabemos muitas outras.

Conclusões

Se você se encontra com alguém cuja história encaixe em algumas dessas colocações, não necessariamente significa que você está tratando com um infiltrado. Simplesmente significa que as suas suspeitas justificam mais perguntas e investigações. Como comentamos em outros momentos, esse manual é um guia, um ponto de partida, não uma forma de provar um caso, nem uma fórmula mágica.

Mesmo que tenhamos detectado padrões comuns nos casos do estado espanhol e do Reino Unido, não significa que não possa haver mais do que até agora não puderam ser demonstrados. A ideia é seguir atualizando esse manual com o passar do tempo e com a aparição de novos casos. Por isso também é importante conservar todas as informações e dados de cada um deles, já que podem ajudar a seguir completando as peças do quebra-cabeça que compõem uma infiltração policial.

As infiltrações policiais tem sido historicamente consideradas um tema tabu, por múltiplas e diferentes razões (vergonha, “debilidade”, incapacidades de gestão, etc.) Isso permitiu que não tenha sido transmitida da forma adequada nenhum tipo de experiência militante a respeito e que não tenham podido gerar ferramentas e mecanismos que possibilitassem uma gestão correta frente a suspeitas ou inclusive prevenir as infiltrações. Por isso voltamos a incidir na importância de fazer públicos os casos, juntar a informação, criar ferramentas e transmitir o aprendizado.

Claro que desaconselhamos fortemente que se difundam rumores baseados unicamente em suspeitas, e recomendamos investigar as mesmas seriamente o antes possível. Os rumores sem confirmação ocasionam muitos danos e podem destruir organizações desde dentro, independentemente de que haja ou não uma infiltração real.

É importante lembrar que, ainda que possa haver pontos em comum na forma de atuar dos infiltrados, existem também um bom número de diferenças, dependendo dos objetivos que tenham postos em cima deles, do tipo de coletivo ou ambiente onde vão se introduzir… Inclusive podem começar com determinados padrões e ir mudando-os em função de como vai se transcorrendo a infiltração. Não esqueçamos que há toda uma equipe detrás e que praticamente tudo o que faz ou deixa de fazer um infiltrado está calculado e não obedece a iniciativa individual do mesmo.

Também observamos que há boas razões para que as pessoas caiam nas mesmas categorias sem ser um infiltrado, não somos infalíveis. Por exemplo, podem haver boas razões para que alguém não tenha contato com a sua família, ou para que as pessoas desapareçam por uma temporada. O esgotamento também é um motivo comum para que as militantes se retirem.

Ainda, nem todas as histórias encobertas são exatamente iguais, há variações. Cada caso é particular e o infiltrado se adaptará ao que sua equipe ordene em função das circunstâncias ou do momento concreto da infiltração.

Outra questão importante e com a que infelizmente tivemos que lidar em algum dos casos é com a falta de colaboração de alguns militantes que em algum momento coincidiram com o infiltrado. Essa obstaculização da investigação ocorreu devido a más relações ou ranços do passado (inclusive do presente). É necessário demonstrar um olhar com um senso crítico e madurez política para saber em que momento e em que lugar essas atitudes precisam ser deixadas de lado. Cada detalhe, por pequeno que seja, pode ajudar a confirmar ou descartar uma suspeita.

Se alguém não encaixa nos padrões não significa descartar qualquer suspeita. Por último, gostaríamos de fazer uma reflexão importante. Mesmo que haja boa intenção. acreditamos que usar como argumento contra as infiltrações policiais o caráter “pacífica/inofensiva” das organizações que sofreram com isso somente serve para apagar qualquer potencial revolucionário e é um erro estratégico que a longo prazo pode sair caro.

É evidente que essas organizações e movimentos sociais não supõem um perigo imediato para o estado e que “somente” exercem desobediência civil, e os considerados “delitos” para a legalidade burguesa (parar vias, autodefesa antifascista, barricadas, greves de fome…). Mas uma coisa é como são agora as organizações e MMSS (pelo contexto, pela capacidade organizativa, pela correlação de forças, etc) e outra como podem ser dentro de um tempo em função das aspirações e horizontes que queremos conseguir. Por isso, basear na defesa discursiva sobre o caráter “pacífico”, ou “inofensivo” é nos condenar a não poder nunca mudar as coisas e limitar nossa luta. Acreditamos que há argumentos de sobra para fazer frente dialéticamente a essas práticas e não cair nesses erros.

O mesmo ocorre com utilizar como argumento central a “legalidade” ou “ilegalidade” desses métodos. Se são ilegais, amanhã mudarão a lei para que sejam legais. O ponto está em assumir que o estado não tem linhas vermelhas na sua guerra contra a classe trabalhadora organizada.

Isso não tira que em momentos pontuais e como estratégias concretas não possamos utilizar a legalidade para abrir certas frentes, como podem ser por exemplo as denúncias apresentadas contra os infiltrados em Barcelona, Girona y Valencia, ou a denúncia por ameaças contra um dos infiltrados em Madrid.

As redatoras desse manual esperam que, como militantes, esse documento seja útil de alguma maneira. Nele nós falamos sobre o que utilizamos e expressamos nossos aprendizados e experiências em todos processos de infiltrações policiais que sofremos, com o fim de que vocês possam partir de um ponto mais avançado do que o que tivemos que começar nesse momento, que era quase um ponto zero. Apesar de termos aberto o caminho o mais largo possível, deixamos um meio de contato para que você possa expressar suas dúvidas e sugestões pontuais, assim como seus aprendizados com os quais possamos ampliar ainda mais esse manual.

manualinfiltrados@gmail.com


1. 

Descrita e regulamentada pelo Decreto de 8 de fevereiro de 1946, pelo qual se aprova a nova redação oficial da Lei Hipotecária, a nota simples é um documento informativo que emite o Registro de Propriedade e que indica quem tem a titularidade da casa e qual é a situação jurídica do imóvel.